A Dimensão Teatral do Auto da Fé

A Dimensão Teatral do Auto da Fé

Tendo como âmbito a relação entre o teatro e a sociedade, partindo da ideia de que o Auto da Fé, a cerimónia da Inquisição na qual, publicamente e com grande aparato, eram anunciados os condenados por heresia e as respetivas penas, possuía uma dimensão teatral, surge este livro. A igreja e o teatro estiveram sempre, de uma forma ou de outra, relacionados e, essa condição levava-me a pensar que as manifestações do poder religioso utilizavam procedimentos teatrais na sua elaboração e que haveria a consciência da eficácia do teatro enquanto instrumento de instauração da ordem e correção de comportamentos desajustados. No caso do Auto da Fé havia a particularidade de, em simultâneo, este operar enquanto instaurador de terror e enquanto festa. 

O público aderia a esta dupla função, exteriorizando as emoções, acompanhando vocalmente os cânticos e as orações e incitando os condenados não confessos a confessarem o seu crime. Sou e sempre fui esse tipo de homem que encontra na atividade do fingimento a melhor forma de se esconder e de se revelar. Desde a idade de seis anos que soube que queria ser ator - sem saber exatamente o que significava isso nem qual a importância que teria no seio da sociedade. 

Sentia apenas que não me cansava (e esperava nunca vir a cansar-me) de fingir. Estava longe de saber que esse fingimento era a minha tradução do conceito mais geral de representação. (…) Havia e há, pois, uma relação direta entre teatro e sociedade. Mas essa relação não se resumia a uma função de entretenimento ou a ser uma das formas de expressão artística do ser humano. Havia e há uma utilidade estética, no teatro, que lhe permite conformar uma ideologia ou um conjunto de normas de conduta. Deste modo, o teatro poderia funcionar como instrumento pedagógico e propagandístico.

2018
Bruno Schiappa
Investigador